O 1º Desafio dos Ciclistas Entregadores movimentou as ruas de Maceió e chamou a atenção para uma categoria que enfrenta diariamente o trânsito, o calor, as longas distâncias e os custos de manutenção da própria ferramenta de trabalho.
Realizada no dia 14 de junho de 2026, com concentração e encerramento na Praça Vera Arruda, no bairro da Jatiúca, a competição foi organizada pela LECA — Liga Estadual de Ciclismo Alagoana. Durante sete horas, das 8h às 15h, os participantes precisaram conciliar quilometragem percorrida, quantidade de entregas, estratégia e resistência física.
Mais do que uma disputa pelo pódio, o evento apresentou ao público as histórias de homens que pedalam diariamente para sustentar suas famílias, complementar a renda e construir um futuro melhor.
Uma competição criada a partir da realidade dos entregadores
A ideia do desafio surgiu durante a segunda Assembleia Geral da LECA, realizada em 9 de maio de 2026. Na ocasião, Carlos Havaiano apresentou a proposta ao também fundador Roberto Oliveira, conhecido como Raio, que apoiou a realização do evento.
Sensibilizado pelas dificuldades enfrentadas pelos ciclistas entregadores, Carlos iniciou a organização, providenciou a confecção dos troféus e convidou profissionais de diferentes bairros de Maceió. Quatro aceitaram participar da primeira edição: André, Juliano, Adoni e Rodrigo.
A competição contou com a aprovação da Federação e da Associação de Entregadores. Segundo a organização, os custos da primeira edição foram assumidos pelo próprio idealizador, demonstrando o esforço para retirar a iniciativa do papel e abrir espaço para a valorização da categoria.
O evento também reforçou uma mensagem essencial: nenhuma entrega vale mais do que a vida. Mesmo diante da pressão dos horários e dos aplicativos, o respeito à sinalização, o cuidado no trânsito e o retorno seguro para casa devem permanecer como prioridades.
Sete horas de esforço sob o sol de Maceió
A manhã começou cedo na Praça Vera Arruda. Antes da largada, os participantes receberam as últimas orientações sobre o funcionamento da prova. Às 8h, o desafio teve início.
Rodrigo chegou poucos minutos depois da largada. Como já havia recebido as regras e orientações por meio do WhatsApp, entrou normalmente na competição, embora tenha começado com uma pequena desvantagem em relação aos demais.
Durante as sete horas de prova, os entregadores enfrentaram o sol intenso, o desgaste físico e a concorrência natural de outros profissionais que trabalhavam normalmente na cidade. Cada participante adotou sua própria estratégia, escolhendo rotas, administrando as chamadas dos aplicativos e buscando o melhor equilíbrio entre entregas realizadas e quilômetros percorridos.
Alguns competidores abriram mão até mesmo do horário de almoço para tentar melhorar o desempenho. Apesar da disputa, o clima foi marcado pelo respeito, pela amizade e pela troca de experiências.
Ao final, todos concluíram o desafio sem acidentes ou incidentes, retornando à Praça Vera Arruda para o encerramento e a entrega da premiação.
André conquista o primeiro lugar após uma rotina de muita superação
Com 16 entregas realizadas e 59,58 quilômetros percorridos, André garantiu o primeiro lugar da competição.
A vitória ganhou ainda mais significado diante da realidade enfrentada pelo entregador ao longo do ano. André contou que sua rotina costumava começar por volta das 6h, com o início das entregas entre 7h30 e 8h. Seu objetivo era voltar para casa mais cedo e conseguir aproveitar mais tempo ao lado da esposa.
Os planos, no entanto, precisaram mudar quando sua mãe passou por uma cirurgia cardíaca. Além das próprias contas, André assumiu parte das despesas dela e passou a trabalhar entre 12 e 13 horas por dia, muitas vezes começando às 8h e encerrando somente entre 20h e 21h.
O ritmo intenso acabou afetando sua saúde e provocou um afastamento temporário. Depois da recuperação, ele decidiu reorganizar a rotina e buscar mais equilíbrio entre o trabalho e a vida familiar.
Sem perceber, os meses de longas jornadas prepararam André física e mentalmente para a competição. Acostumado a aceitar corridas mais distantes e exigentes para alcançar a meta diária, ele chegou ao desafio com resistência, estratégia e experiência.
Atualmente, diante da redução do movimento em uma única plataforma, André precisa permanecer conectado a diferentes aplicativos. A rotina exige atenção para conciliar chamadas, horários e rotas, aumentando ainda mais a complexidade do trabalho.
A vitória representa uma renda extra importante, mas também simboliza o reconhecimento de uma trajetória marcada por responsabilidade, dedicação à família e desejo de conquistar estabilidade.
Juliano pedala para construir uma nova etapa da vida
O segundo lugar ficou com Juliano, que completou 12 entregas e percorreu 71,12 quilômetros.
Aos 23 anos, morador do Village Campestre II, no bairro Cidade Universitária, Juliano trabalha há sete anos em uma oficina de bicicletas ao lado do pai. A profissão é motivo de orgulho e mantém uma relação direta com a paixão pelas duas rodas.
Além do trabalho na oficina, ele atua como entregador pelo iFood para complementar a renda. Juliano está noivo e se prepara para o casamento, previsto para acontecer no final de 2026.
Cada entrega e cada quilômetro percorrido fazem parte do esforço para organizar as despesas dessa nova fase e construir um futuro ao lado da futura esposa. No desafio, sua resistência garantiu a segunda maior quilometragem da prova e a medalha de prata.
Adoni leva ao pódio a força do projeto Marcha nas Entregas
Com 11 entregas e 73,65 quilômetros, Adoni terminou na terceira colocação e registrou a maior distância percorrida entre os competidores.
Para ele, pedalar é muito mais do que uma atividade profissional. A bicicleta representa paixão, liberdade e a sensação de enfrentar uma nova missão a cada dia.
A competição apresentou uma dinâmica diferente da rotina comum. Enquanto no trabalho diário cada entregador administra seu próprio tempo, no desafio qualquer atraso poderia interferir diretamente no resultado. Foram necessárias estratégia, concentração e resistência durante todo o percurso.
A participação de Adoni também deu visibilidade ao projeto Marcha nas Entregas, iniciativa criada para arrecadar peças, roupas, acessórios e equipamentos destinados a entregadores que utilizam a bicicleta como ferramenta de trabalho.
Os custos com pneus, correntes, freios e outros componentes são assumidos pelos próprios profissionais. Em alguns casos, o entregador precisa escolher entre consertar a bicicleta ou pagar uma despesa básica da família.
O Marcha nas Entregas já conseguiu realizar doações e auxiliar trabalhadores que precisavam de equipamentos para continuar trabalhando. Para Adoni, o desafio foi uma oportunidade de fortalecer a categoria e mostrar ao público uma realidade que muitas vezes permanece invisível.
Rodrigo encontra nas entregas liberdade e prazer em pedalar
Rodrigo terminou a competição na quarta colocação, com nove entregas e 32,87 quilômetros percorridos.
O entregador trabalha por meio das plataformas 99, iFood e Uber. Sua rotina normalmente começa entre 11h e 14h, seguindo até aproximadamente 23h.
Em um dia de trabalho, Rodrigo costuma percorrer entre 35 e 60 quilômetros, com faturamento aproximado de R$ 100 a R$ 130. Sua área de atuação inclui regiões como Cruz das Almas, Pajuçara, proximidades do Porto de Maceió e o bairro do Poço.
Para ele, realizar entregas é uma atividade prazerosa porque reúne duas oportunidades importantes: ganhar dinheiro e pedalar. Rodrigo também valoriza a autonomia proporcionada pelo trabalho, que permite organizar os próprios horários e definir o ritmo da rotina.
Mesmo começando o desafio com alguns minutos de desvantagem, ele permaneceu na disputa e completou a prova, sendo reconhecido pela dedicação e pelo espírito esportivo.
Resultado do 1º Desafio dos Ciclistas Entregadores
🥇 1º lugar — André
16 entregas e 59,58 quilômetros
🥈 2º lugar — Juliano
12 entregas e 71,12 quilômetros
🥉 3º lugar — Adoni
11 entregas e 73,65 quilômetros
🏅 4º lugar — Rodrigo
9 entregas e 32,87 quilômetros
A premiação contou com troféus e valores de R$ 200 para o primeiro colocado, R$ 100 para o segundo e R$ 50 para o terceiro.
LECA fortalece o ciclismo e cria novas experiências em Alagoas
A Liga Estadual de Ciclismo Alagoana é uma organização sem fins lucrativos, com sede permanente em Maceió, voltada ao fortalecimento e à valorização do ciclismo no estado.
A entidade reúne grupos, equipes e apaixonados pelas duas rodas em passeios, cicloviagens, pedais turísticos, trilhas, encontros semanais e eventos que incentivam a integração, o turismo regional, a qualidade de vida e o respeito no trânsito.
A LECA foi fundada por Carlos Havaiano, conhecido como Natureza ou Sonic, e Roberto Oliveira, o Raio.
Carlos possui uma trajetória marcada por grandes desafios sobre a bicicleta. Ciclista federado e guia de turismo, já realizou cicloviagens de longa distância, percorreu as ladeiras de Maceió, participou de atividades voluntárias em escolas e mantém uma sequência diária de pedaladas iniciada em novembro de 2021.
Roberto Oliveira também carrega uma longa relação com o ciclismo. Em 1998, tentou realizar o percurso entre Maceió e Recife utilizando um mapa impresso como orientação. Anos depois, passou a usar a bicicleta como meio de transporte para o trabalho, participou de grupos e realizou diferentes percursos de longa distância. Em 2025, refez a viagem até Recife, desta vez com mais experiência e utilizando a tecnologia do GPS.
Juntos, os fundadores trabalham para transformar cada pedal em uma experiência de amizade, superação, liberdade e descoberta de novos caminhos.
Valorização, segurança e respeito
O 1º Desafio dos Ciclistas Entregadores mostrou que, por trás de cada pedido que chega à casa do consumidor, existe uma história de esforço, responsabilidade e perseverança.
São trabalhadores que arcam com internet, celular, manutenção da bicicleta e equipamentos, enquanto enfrentam o trânsito intenso, a estrutura urbana e a pressão constante por produtividade.
A primeira edição deixou como legado a integração entre os participantes, a visibilidade para a categoria e a expectativa de que novos desafios sejam realizados em Maceió. A tendência é que as próximas edições reúnam mais entregadores e ampliem o debate sobre segurança, condições de trabalho e reconhecimento profissional.
O público pode conhecer mais sobre as ações da Liga Estadual de Ciclismo Alagoana acessando o site www.lecamcz.com.br. As principais histórias, eventos e iniciativas que movimentam Maceió e região também podem ser acompanhadas pelo @detudomaceio.
1º Desafio dos Ciclistas Entregadores une competição, superação e valorização da categoria em Maceió



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